
Devir gato em dias de verão
Em dias de verão, em que a sua casa vira hostel, a cidade parece estar em feriado todos os dias da semana com seus vestidos floridos e rostos queimados, você acha facilmente um lugar para estacionar, desce do carro, é sexta feira, quase compra um sorvete na loja de revistas pra levar pro cinema, decide ir antes ver os horarios do filme e... o cinema esta fechado ! Desorientada, entra no patio cuja porta rolante esta descida pela metade, e tromba com uma placa "fechado do dia 27 de julho até o 17 de agosto !" Revolta, volta pro carro sem sorvete, decidindo correr até o cinema blockbuster espirito shopping center que costuma detestar so pra ver algo, nao importa o quê... ja é quase 18h, chega 18h5, pergunta no caixa, quais sao os filmes das 18h, como se tivesse que se esconder na sala de cinema, fugindo de alguém, mal ouve o nome dos filmes, lembra dos cartazes vistos na entrada quando corria, ok, "le café du pont" e embarca na pequena sala com três pessoas de terceira idade prontas pra evocar reminiscências, as de um garoto de um pequeno village francês na regiao de midi-Pyrénées que passou parte da infância vendo os pais trabalharem no unico café do lugar... lembra do tempo que os alemães invadiram a frança e o café, dorme uma parte no meio das lembranças, acorda vendo a mãe tendo uma estafa mental e o pai do menino, apos fazer do café um salão de baile, acaba vendendo-o para dar uma vida mais tranquila à esposa numa bela casa onde eles podem pescar no belo lago da frente... ok...
Bom, voltei pro carro, ainda sem sorvete, em dois minutos esqueci do filme, chego em casa e nada do Roman... lembro so tê-lo visto pela ultima vez na quarta à noite... na quinta estavamos fora o dia todo e voltamos bem tarde... ai ontem acordamos, ja era sabado e o potinho de ração estava intocavel, bateu um desespero, fui trabalhar como uma mãe cujo filho partiu sem dar noticias e que começa a imaginar todos fins possiveis, fuga, morte encomendada, envenenamento ou ele so se perdeu e nao consegue voltar, varios filminhos na cabeça... voltamos no começo da tarde pra receber o encanador (desde maio isso estava pendente... ah casas, um verdadeiro corpo, complexo, cujos orgãos adoecem às vezes) e nada do Roman... Chorei.
Pedi (a quem ? aos céus, ao que pedimos sempre na hora dos desesperos) que ele voltasse, que voltasse com três coelhos vivos, passaros ou camundongos, sem problema !
Vou até o vizinho, ele tinha vindo nos apresentar o tal encanador e se preparava para um jantar anual que recebe 3 mil pessoas, ele conta entusiasmado, somos uma trentaine a partir daqui de Averdon, "très bien, você viu o Roman" ? Ah, o Norman (eles insistem em chama-lo assim), nem te conto... o que ? Ele ficou preso na nossa garagem de sexta às 18h até hoje ! Onde ele esta agora ? Ta por ai tomando sol... aliviada tenho vontade de chorar de novo...
Horas passam e nada dele voltar do tal sol... ja era mais de 21h quando ele mia na porta, confuso desorientado, ou muito triste ou apaixonado, desconfiado, traumatizado pensei melhor... entrou meio perdido, como se não reconhecesse mais a casa, nem nos, nada, out of time...
Não sabia o que lhe oferecer, na despensa de casa, vejo uma latinha de sardinha, dessas que compramos pra eventuais urgências, não, não era comportamentalismo, era so um jeito de reacolhê-lo, como quando tomamos chuva quando crianças, chegamos em casa e a mãe ou avo, nos da uma xicara de leite quente... Ele comeu com gosto... depois miava estranhamente, olhando para nulle-part... deixamos ele tranquilo, subimos pra jantar na frente da tv vendo um documentario sobre Talking heads "stop making sense"... aos poucos ele subiu, voltou, olhava pra tudo de novo, como se entrasse ali pela primeira vez até que, como antes, se jogou em cima do joris e depois em cima de mim, no meu torax... sim, veio um fantasma materno de amamentação, mas, sobretudo, como foi bom vê-lo ai dormindo uma boa horinha... impressionante como o sentimento de perda é um dos mais terriveis a experimentar e impressionante como, estando em relação com animais, somos convidados a estar em relação com o não humano, com outra logica, que convoca a nossa logica humana, mas convidando-a a deslocar-se, desviar-se , desconcertar-se, voltar para o antes da linguagem, algo assim... la pela meia noite ele desceu a escada, colocou-se do lado da cadeira que é (era) a sua cama e dormiu na cadeira vizinha... nunca saberemos o que ele viveu e dormimos felizes por ele estar de volta, sem querer entender nada, aceitando as sombras e obscuridades do mundo, da vida...


3 commentaires:
Amamentar o gato?? Deve ser instinto felino que você tem...na próxima vez que o Romam aprontar sugiro que corte os bigodes dele: melhor do que castrá-lo e ele amansa que é uma beleza.
Instinto felino? Essa mulher é uma gata! Uma gata tropical que se desloca por entre as brumas sulfúreas do velho mundo!
Ai, Clara, li o post emocionada. Imagino a sensação ruim que teve enquanto o Roman não voltou. Tenho uma bichana em casa, uma cadelinha, que é parte da casa e de nossas vidas.
A Mel me contou dos dias que passou aí. Ela adorou! Eu fiquei imaginando as paisagens...
beijo grande.
Patrícia
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